Duas consciências: a do Chacal e a da Girafa

24 de abril de 2019

Na abordagem criada pelo psicólogo americano Marshall Rosemberg, a Comunicação Não-Violenta, a girafa e o chacal são animais que representam nossa maneira de estarmos nas relações, tanto no intrapessoal como no interpessoal e no sistêmico.

Ao expormos esse tema, vale lembrar que trazemos diferenciações didáticas. Em nós elas se misturam, são flexíveis e complexas. O objetivo deste texto é o de oferecer elementos para uma possível reflexão e produção de autoconhecimento.

Cada um de nós opera nessas duas consciências, a da girafa, que é generativa, empática e construtiva e do chacal, que é violenta e destrutiva. Podemos trazer uma intenção firme para alimentar a consciência generativa, amorosa e compassiva da girafa e a abordagem prática da Comunicação Não-Violenta nos oferece um potente apoio para o desenvolvimento e o fortalecimento dessa consciência.

Vamos entender melhor as características dessas duas mentes.

O chacal simboliza uma consciência, uma linguagem interna ou externa e um comportamento violento, de ataque ou defesa e, às vezes de fuga, de não responsabilização.

Como atua essa consciência? Muitas vezes rotulando, julgando e condenando, diagnosticando, sem uma investigação aprofundada do que está acontecendo. Por exemplo, se vejo meu colega de trabalho se deitar na rede por 20 minutos diariamente, após o almoço, posso pensar e comentar: – “Meu colega é um folgado!” A questão é que não procurei saber de onde meu colega vem, qual sua cultura, quais são seus hábitos familiares, bem como não busquei entender quais são suas necessidades quando ele deita na rede após o almoço. Apressadamente o rotulo de “folgado” – e faço isso como se fosse um ataque de um chacal. A consciência do chacal acredita do pensamento binário de certo e errado, melhor e pior, está presa, muitas vezes, na dualidade do concordo – discordo.

A girafa, por sua vez, é o animal que tem o coração mais forte dos mamíferos, um coração que representa a disponibilidade afetiva e uma postura para compreender, já que ela é alta o bastante para enxergar o contexto como um todo, o sistema.

No exemplo do meu colega de trabalho, a consciência da girafa talvez fosse aquela que iria investigar os hábitos culturais do colega e buscaria compreender quais as necessidades que ele estaria buscando atender para si, ao se deitar na rede. Será que ele estaria precisando de descanso, pausa, relaxamento, autorregulação, manutenção de sua cultura que lhe dá um senso de pertencimento e conexão com suas raízes?

A consciência da girafa representa, então, nossa disposição e abertura para buscar compreender o que se passa com a experiência subjetiva e objetiva do outro, a partir do universo dele. Ela é altamente empática.

Existem outras tantas diferenciações entre as duas consciências. A do chacal pode nos alienar da vida que pulsa em cada um de nós e também dificultar de produzirmos boas conexões nas nossas relações. A consciência da girafa tende a enriquecer nossa vida, nos mantendo em contato com nossa energia vital, nossas necessidades humanas e universais, além de favorecer a boa qualidade de nossas relações intrapessoais, interpessoais e sistêmicas.

A intenção, quando se trata da consciência da girafa, é de que os benefícios entre as trocas interpessoais sejam mútuos, que os acordos fiquem favorecidos e o modelo relacional é o ganha-ganha. A intenção, na consciência do chacal é que o sujeito atenta suas próprias necessidades, não importando o que acontece com o outro. O modelo relacional é o ganha-perde.

A pessoa que opera dominantemente na consciência do chacal, acredita na punição como estratégia de educação. Na consciência da girafa, mesmo diante de uma ação ou uma fala trágica ou que não é ética, a busca é por pesquisar quais as necessidades o sujeito estava tentando atender com seu comportamento e apoiá-lo no atendimento daquelas necessidades com uma estratégia a favor do bem comum.

Quando a pessoa opera por meio da consciência da girafa ela quer escutar seu interlocutor e ser escutada por ele; na consciência do chacal, a pessoa, muitas vezes, só que falar.

Se a consciência da girafa está desperta em mim, aquilo que sinto, os meus sentimentos, são minha responsabilidade, pois entendo que eles são, quase sempre, derivados de minha interpretação e de minhas expectativas em relação ao que me acontece ou, simplesmente, brotam de meu mundo afetivo. Se a consciência do chacal está desperta em mim, a responsabilidade e a culpa pelo que sinto é do outro ou do ambiente externo. Não há auto implicação com o meu jeito de receber os eventos que vivencio.

Na consciência do chacal é comum que eu cobre e acuse o outro pelo atendimento de minhas necessidades, enquanto que operando com a consciência da girafa eu me responsabilizo e me empodero  atender minhas necessidades com criatividade e assertividade, algumas vezes usando minha rede de apoio.

Com a mente de girafa, eu sei fazer pedidos que incluem o outro para construir acordos, na mente do chacal eu faço exigências e não aceito o “não” como resposta.

O uso do poder também é diferente nas duas consciências: na da girafa, eu compartilho o poder com os outros; no chacal, eu uso o poder para dominar e ou submeter os outros.

Se não cairmos na armadilha de tomarmos o chacal como mau e a girafa como boa, pois essa seria uma classificação reducionista, quando atuarmos com a consciência do chacal, podemos procurar integrar nossa consciência de girafa para nos apoiar a traduzir a linguagem destrutiva e violenta para conhecermos nossas necessidades humanas e universais escondidas e nos reconectarmos com nossa energia vital. Assim, aprendemos a ouvir nossas mensagens internas mesmo se elas vierem como uivos do nosso chacal.

Sabe como podemos produzir essa nova consciência: amorosa, respeitosa e a favor da vida? Com muita prática e com uma rede de apoio que compartilhe dessa mesma intenção.

Por Lucia Nabão
Psicóloga, Mediadora de Conflitos e Facilitadora de Processos em Comunicação Não-Violenta

Lucia Nabão

Tem diversas formações nacionais e internacionais em Psicologia, Mediação de Conflitos, Círculos de Construção de Diálogo, Formação Holística de Base na Universidade da Paz. Atua como Psicóloga, Facilitadora em CNV e Anfitriã de Grupos Estudo e Prática de CNV em Ribeirão Preto e São Paulo. A integração de sua vivência prática e de todos os conhecimentos adquiridos a fazem uma profunda conhecedora da alma humana o que lhe confere grande prestígio em suas áreas de atuação.

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