Culpa e vergonha sob a ótica da CNVV

16 de abril de 2019

Vários estudiosos da psicologia, referem-se à culpa como um sentimento que fica vivo quando nos julgamos negativamente ao acreditarmos que não conseguimos viver de acordo com os nossos próprios padrões ou padrões impostos pela sociedade.

Na teoria de Freud, a psicanálise, a culpa é consciente e inconsciente, individual e universal, está relacionada às mensagens do Superego para o Ego. Está ligada aos conceitos religiosos de pecado e às proibições relacionadas ao prazer, a um tipo de obsessão por um eu ideal e com aspectos narcisistas de ideal de eu.

Para não viver a auto decepção de nossa natureza imperfeita, a psique cria mecanismos defensivos ao usar o sentimento de culpa. Talvez ela esteja tentando nos defender de perceber nossa vulnerabilidade humana

A vergonha indica que temos introjetado em nossas mentes os moldes, as formas, os modelos do que deveríamos ser e que deveríamos nos encaixar, nos espremer neles. Se não cabemos nesses moldes, tem algo errado conosco.

Fala também de um senso de comparação. Quando nos sentimos muito melhores do que a média, fazemos muito sucesso, somos eficientes, brilhamos demais, ou, quando nos sentimos excessivamente incapazes, incompetentes, pouco inteligentes e menos que perfeitos, sentimos vergonha. A vergonha produz muita alienação de nós mesmos, tendemos a nos esconder para não sermos descobertos e expostos.

A grande questão é que este ciclo de culpa e vergonha nos paralisa, nos desempodera e nos desumaniza. Perdemos nossa espontaneidade, aquela conexão com nosso eu profundo que nos sinaliza acerca de nossos desejos essenciais e nossas necessidades. E assim, deixamos de fazer nossa autorregulação.

A culpa e a vergonha seriam então sentimentos morais. A culpa estaria mais ligada com aquilo que eu espero de mim mesmo, minha auto idealização a nível, principalmente, dos meus comportamentos e a vergonha estaria conectada com meu self, aquilo que sou como essência humana.

Há uma área no nosso cérebro chamada Sistema Límbico que é responsável por todos os nossos julgamentos morais e também pela sensação de culpa e vergonha. É quando vem aquela mistura de preocupação e remorso que faz com que repensemos sobre as nossas atitudes depois que elas foram tomadas.

Como diz Kelly Bryson no livro “Não Seja Bonzinho, Seja Real”:

“Se ouço a culpa, entendo mal sua dor. Se você ouve a culpa, tente ouvir minha dor de novo.”
E ainda:

“…As pessoas nunca ficam bravas ou chateadas conosco, elas estão aflitas com sua carência. Eu posso ser o detonador, mas nunca a dinamite. Posso ser o gatilho de sua dor psicológica, mas nunca a causa. Uma forma de treinar minha consciência a se concentrar nessa verdade é verbalizá-la na mente ou para a(o)  parceira(o).”

A culpa é uma forma de pedir ajuda ou querer receber empatia, que não funciona. Cada vez que eu culpo alguém ou me culpo, eu me torno mais desconectada de mim e do outro. Marshall Rosemberg, uma vez falou que, a culpa seria uma expressão trágica de necessidades não atendidas. O trágico é que, ao usar a culpa, me alieno ainda mais das minhas necessidades ou de compreender empaticamente as necessidades do outro. Por isso fico impotente, inseguro, confuso.

O sentimento comum de culpa nos leva a achar que somos errados, que produzimos um erro e que deveríamos ser perfeitos. Isso não tem relação com sermos humanos. Por isso dizemos que a culpa nos desumaniza. Os seres humanos são vulneráveis, não podem tudo, não são perfeitos, sentem muitos sentimentos e têm muitas necessidades.

A vergonha e a culpa são experiências privadas, vivemos no nosso interior, mas são também públicas, ocorrem geralmente na presença de outras pessoas. O desdobramento dessas experiências, não raro, é a expressão de raiva e da violência, decorrentes da pouca conexão com as verdadeiras necessidades.

Como diz Brené Brown, em A Coragem de Ser Imperfeito:

“É verdade que quando estamos vulneráveis ficamos totalmente expostos, sentimos que entramos numa câmara de tortura (que chamamos de incerteza) e assumimos um risco emocional enorme. Mas nada disso tem a ver com fraqueza.”

Nos estudos sobre violência e infração, encontramos que o próprio assassino ou o criminoso se sente vítima, às vezes, por não ter tido uma família e outras vezes por se sentir à margem da sociedade. Isso mostra uma relação próxima entre culpa e vitimização. Nessa dinâmica, não há uma responsabilização justa.

Podemos pensar ainda que, quase sempre, se deixamos alguém nos oprimir ou nos ferir, seria útil nos responsabilizarmos por isso. Somos os responsáveis por não estarmos expressando nosso poder de dizer não, de nos afastarmos ou negociarmos com o outro opressor.

A conexão com nosso self, a camada do centro do nosso ser, onde nos conectamos com as necessidades humanas e universais, nos empodera para nos movermos para aquilo que é sadio e protetivo em nossas vidas.

A versão da culpa que é de fato culpa

Agora, imagine que você, propositalmente, faça algo que machuque alguém, imprimindo-lhe sofrimento, humilhação, prejuízo, algo que possa usurpar a dignidade desta pessoa. Se você, diante disso, não se sentir desconfortável e se em algum momento, não fizer uma autorreflexão, e se sentir implicado com o evento, talvez você não esteja vivenciando a sua humanidade.

A culpa é um sentimento construtivo e generativo quando nos ajuda a fazer esta autorreflexão, produz um arrependimento que nos impulsiona para uma reparação.

Por outro lado, a palavra “culpa” que usamos corriqueiramente para nos responsabilizar de forma absoluta ou para colocar essa responsabilidade inteira no outro, pode nos colocar (e colocar o outro) no lugar de reféns e vítimas ou de vilões e algozes. Essa é a culpa degenerativa, destrutiva e paralisadora. É o jogo infantil e cruel do algoz-vítima.

O sentimento de culpa quando é generativo pode estar apontando para as necessidades humanas e universais de equidade, justiça, reparação, empatia, igualdade, reconstrução, conexão e luto, entre outros.

Lembramos que os sentimentos têm função, são os mensageiros de nossas necessidades humanas e universais. Estas dizem respeito à força de vida pulsante em nós.

A linguagem do chacal da culpa. São expressões como:

  • Eu tenho ou não tenho que…
  • Eu deveria ter feito ou não ter feito…
  • Eu deveria ter dito ou não ter dito….
  • Eu sou uma idiota mesmo, nunca aprendo. Ela é uma imbecil, nem se lembrou de me cumprimentar pelo meu aniversário.
  • Me senti abandonada, quando você não me incluiu no jantar do seu trabalho.

Responsabilidade ao invés de culpa ou de vergonha

Uma troca possível, seria ao se perceber chateado consigo mesmo ou com outra pessoa, no lugar de culpar-se ou culpar a pessoa, procurar se conectar com quais as necessidades você ou a pessoa estão buscando atender.

Responsabilidade tem a ver com a escolha consciente e voluntária de como você quer responder a uma situação. É sair do lugar do refém, do jogo de algoz-vítima e se empoderar para escolher como quer viver cada situação em seu mundo interno. É também praticar suas habilidades da linguagem da girafa, da empatia com o outro e da auto empatia.

Essas habilidades podem ser aprendidas, treinadas e fortalecidas com a prática.

Por Lucia Nabão
Psicóloga, Mediadora de Conflitos e Facilitadora de Processos em Comunicação Não-Violenta

Lucia Nabão

Tem diversas formações nacionais e internacionais em Psicologia, Mediação de Conflitos, Círculos de Construção de Diálogo, Formação Holística de Base na Universidade da Paz. Atua como Psicóloga, Facilitadora em CNV e Anfitriã de Grupos Estudo e Prática de CNV em Ribeirão Preto e São Paulo. A integração de sua vivência prática e de todos os conhecimentos adquiridos a fazem uma profunda conhecedora da alma humana o que lhe confere grande prestígio em suas áreas de atuação.

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